19 de abr de 2017

A vida do trompetista de jazz Lee Morgan


O novo documentário de Kasper Collin lebra a vida intensa e turbulenta do trompetista de jazz Lee Morgan.

Nat Hentoff escreveu em 1960: "Todo ouvinte de jazz já teve experiencias tão surpreendentes que são literalmente inesquecíveis"

Uma das minhas aconteceu em um encontro com a big band de Dizzy Gillespie no Birdaland em 1957. Estava de costas para a plateia enquanto a banda começava tocar “Night in Tunisia.” De repente um som de trompete despontou da banda de forma tão reluzente e eletrizante que toda a conversa do bar cessou e os que gesticulavam ficaram com congelados com as mão abertas. Após o primeiro estrondoso impacto, me virei e vi que o trompetista era o jovem "sidemand" da Philadelphia, Lee Morgan.

Lee Morgan, que tinha dezenove anos quando Hentoff o ouviu, causava este efeito na maioria das pessoas. Seu som era tão brilhante, impetuoso e atrevido: como James Brown em começo de carreira com aquela arrogância pomposa da juventude. Morgan era um instrumentista malandro, rústico e com uma tendência por notas despojadas e abusadas, mas era também um músico sútil e de pensamento musical previdente que construia seus solos como se fossem histórias. Aquela sinergia de  sentimentos profundos e um ar descolado definia o então chamado som Blue Note dos anos cinquenta e sessenta. Morgan era um dos celebres artistas que ganhavam este rótulo. Como David H. Rosenthal escreveu no seu clássico estudo Hard Bop,  ele era o “hard- quintessencial.”

Foi uma vida breve. Morgan sucumbiu à heroína no começo da adolescência, no entanto não foi a agulha e o matou. Foi a mulher que o salvou dela. Helen Moore, uma fã do interior da Carolina do Norte, doze anos mais velha, o tirou das ruas em meados dos anos sessenta quando ele havia penhorado quase tudo que tinha. Ela virou sua esposa legalmente e se mudaram para um apartamento grande no Bronx, cozinhava pra ele e cuidava de sua recuperação. Morgan a agradeceu ficando com uma mulher mais nova. Em uma noite de muita neve em fevereiro de 1972, Helen Morgan foi ao Slug, um jazz club na East Third Street onde Lee tocava e atirou nele com a arma que ganhou dele para se proteger.

Isso fez de Lee Morgan o terceiro em uma série de grandes trompetistas de jazz do pós-guerra a serem privados precocemente de seus dons. Clifford Brown morreu aos vinte e cinco anos em 1956 de acidente de carro; Booker Little, meses mais jovem que Morgan morreu aos vinte e três anos de insuficiência renal em1960. (O lendário trompetista de ragtime, Buddy Bolden ficou psicótico aos trinta anos e morreu vinte anos depois no hospício de Louisiana sem se quer ter gravado uma nota.) Mas a história de Morgan —talvez devido as circunstancias espantosas e escandalosas —nunca havia tido suas devidas dimensões trágicas até o extraordinário filme de Kasper Collin chamado I Called Him Morgan.

Collin é o documentarista que inventou um novo gênero: o "jazz mystery". Em seu filme de 2006, My Name Is Albert Ayler, ele investigou a vida e morte do saxofonista de free jazz cujo estilo estático e gritante invocava uma música folk antiga, se não as dores do parto do universo. Ayler cultivava a atmosfera mística se declarando um profeta e sua música uma força curandeira; ele desaparecera em novembro de 1970, três semanas depois seu corpo foi achado no East River. A causa da morte —um suicídio, provavelmente—nunca foi determinada. Collin fez o uso perspicaz deste mistério para explorar a relação de Ayler com seu irmão Don, um trompetista diagnosticado com transtorno bipolar e mania de grandeza, sua namorada, a cantora Mary Parks, se recusava a aparecer nas cameras, preferindo, segundo ela, "continuar um enigma".

PHOTO: KASPER COLLIN PRODUKTION AB. COURTESY OF THE AFRO-AMERICAN NEWSPAPER ARCHIVES AND RESEARCH CENTER.

Lee Morgan assumiu um perfil radicalmente diferente de Ayler: ele ela um músico de jazz mais tradicional com um exuberante senso de humor, gosto por carros de corrida, roupas caras e mulheres bonitas (Um dos seus apelidos era “Howdy,” por causa das suas orelhas de abano e sorriso bobo o faziam parecer o boneco de ventrílogo Howdy Doody.) A música era sua saída do Norte da Filadelfia, uma vizinhança pobre porém culturalmente rica onde em sua adolescência tinha uma banda com o pianista Bobby Timmons. Logo ele estava deslumbrando o público na orquestra de Gillespie. “Era engraçado ver que ele quase desafiava Dizzy,” Lembra Paul West, baixista que tocou com ele nesta época. “Era extremamente confiante, quase pretensioso." Art Blakey, baterista que formou o grande grupo de hard-bop os Jazz Messengers, contratou Morgan um ano depois. O saxofonista e compositor Wayne Shorter, que tocava ao de um jeito quase que oposto dele, lembra no filme de Collin’ que Blakey gritava para Morgan quando começava a solar: "Conversa com as pessoas, conta sua estória!”




Do final dos anos cinquenta até meados dos anos sessenta, Morgan era “o mais terrível que tinha,” Rosenthal escreve em Hard Bop, porque, mesmo no seu auge, transmitia um tom “malicioso,” forte, sombrio e sexy comparado a Clifford Brown para com seu instrumento. Aos dezoito anos firmou um contrato com a Blue Note e quatro anos depois gravou seu maior sucesso, “The Sidewinder,” um blues de dez minutos com uma contagiante batida R&B que, como ele dizia, veio para ele “como um presente dos Deuses.” Ele rascunhou em um papel higiênico no banheiro do estúdio do engenheiro de som Rudy Van Gelder em Englewood, New Jersey, após acabar o a sessão de gravação.

Collin não conta isso; de fato, nem ouvimos “The Sidewinder,” intencionalmente ele evita clichês da história do jazz. Mas este filme não deixa dúvidas de porque os companheiros de banda de Morgan comentavam sobre suas longas idas ao banheiro: ele havia acabado de sair da reabilitação e suspeitavam que estava usando drogas novamente. Foi Blakey quem o pagou com drogas durante o Jazz Messengers para que ficasse  com mais dinheiro dos shows para si, foi quem botou Morgan na heroina, mas Blakey conseguia administrar seus próprios hábitos; Morgan não. No livro de 1963, Blues People, LeRoi Jones sugeriu que a heroina era popular entre os músicos negros de jazz porque “transformava a descriminação racial da sociedade convencional em uma vantagem (que como tenho dito, foi isso mesmo). Foi uma liderança de ordem maior.” Que veio a um custo exorbitante. Logo após o lançamento de “The Sidewinder”, Morgan torrou todo dinheiro em heroina. Quando Helen o viu no naquele dia de inverno de 1965, ele havia penhorado seu único casaco para comprar drogas e seus dentes estavam quase caindo. O músico e compositor Bennie Maupin, que tocou na última banda de Morgan, disse que ele “foi ao fundo do poço.” No entanto tinha conseguido sair da heroína, mas nunca parou de consumir drogas—algo que Collin não menciona— e começou a cheirar cocaína no lugar.

Não há mistério na morte de Lee Morgan, ao contrário de Albert Ayler: Helen o matou na frente de uma multidão. Mas o documentário "I Called Him Morgan" ilumina um mistério mais profundo, e de certa maneira mais intrigante: a vida da era hard-bop do jazz, que vivenciou uma confluência com os direitos civis e o racismo. O que interessa a Collin não é tanto sobre gravações ou performances, mas com a intimidade entre os músicos e seus amigos. Este era um mundo que só conhecíamos melhor através dos fotógrafos como Roy deCarava, Lee Friedlander, and W. Eugene Smith, que andavam com os músicos de jazz quando não estavam tocando e captavam suas vidas fora dos palcos. O cameraman de Collin, o talentoso cinematógrafo Bradford Young (Selma, Mother of George, A Most Violent Year), claramente fez a lição de casa. A neve caindo e as luzes na cidade de New York; gaivotas, árvores e o pôr-do-sol da Carolina do Norte: Young filma estas imagens em uma textura granulada e elusiva que dá ao filme uma atmosfera estilo French New Wave, movimento intoxicante ao som do jazz dos anos sessenta.

O que Collin procura, acredito, é algo tão elusivo quanto as imagens de Young: a relação entre criação e (auto-) destruição. Já é sabido que os músicos de jazz eram atormentados pela pobreza, drogas, racismo, violência policial e — uma cura que mais parecia uma maldição — o exílio auto-imposto. Eram menos compreensíveis como enfrentavam as coisas e se faziam possíveis as inovações artística. Como nos lembra "I Called Him Morgan", a amizade era um dos pilares: podemos ouvir os músicos lembrando dos bons tempos com Lee, e não só sobre música, mas comendo, comprando roupas e fazendo rachas de carros à meia-noite no Central Park. Eles raramente eram atingidos pela competição, mas eram parcialmente compensados por um motivo artístico em comum e por esperanças na luta pelos direitos civis, como Morgan lembra na sua épica composição de 1964 “Search for the New Land”—  que deu a Collin seu tema principal. Os músicos de Jazz não estavam apenas tentando criar uma nova música, mas também outro país, citando o livro de 1962 de James Baldwin, que se referia ao suicídio do baterista de jazz, Rufus Scott.

Eles não poderiam fazer diferente — dificilmente teriam sobrevivido —sem os companheiros de boemia que compartilhavam de suas visões e os mantinham juntos nas desesperanças. Alguns eram artistas, como o pintor Bob Thompson, um amigo de Ornette Coleman e Jackie McLean; alguns eram críticos, como Hentoff, LeRoi Jones (depois virou Amiri Baraka), e A. B. Spellman; outros ainda eram produtores que não os roubavam, como Alfred Lion e Francis Wolff da Blue Note, alemães judeus exilados que coroaram os artistas e o  jazz como a forma de expressão Afro Americana única do modernismo —“os irmãos animais, o Leão e o Lobo,” assim lembra  Shorter.


PHOTO: KASPER COLLIN PRODUKTION AB / FRANCIS WOLFF © MOSAIC IMAGES LLC.

Mas os membros cruciais desta cena, além dos músicos, talvez tiveram sido as mulheres, a maioria perdida na história. Spellman inicia seu livro de 1966, Four Lives no negócio do Bebop homenageando Jeanne Phillips, “uma mulher determinada cujas opiniões eram valorizadas e suas farpas temidas pelos músicos e críticos que a conheciam. Ela personificava perfeitamente aquele grupo de apreciadores do jazz que sentiam, com razão, que a história depositava ali a cultura vital de seu tempo. Não é de se admirar que as duas das melhores memórias deste meio— "How I Became Hettie Jones" de Hettie Jones,  da primeira esposa de LeRoi Jones e Tonight at Noon de Sue Mingus, pela viúva de Charles Mingus —foram escritas por mulheres, que viram  do lado de dentro a bela luta de seus parceiros.

Helen Morgan foi uma destas mulheres. Muito antes de se tornar assassina, ela era uma boemia garota do campo, frequentava as jam-sessions na parte elegante da cidade atraindo a atenção por suas provocantes roupas justas, atitude independente e sua língua afiada. Ela fazia ótimos jantares em seu apartamento, conhecida como “Helen’s place,” um lugar onde os músicos e seus amigos —a maioria gays e lésbicas—se reuniam na madrugada. Ela não usava drogas—seu apelido era “little hip square” = "cinturinha careta" —mas ela não julgava quem o fazia, e até oferecia abrigo aos viciados que precisavam lugar para dormir.

Uma das forças do filme de Collin é a homenagem ao trabalho dela e luta como uma mulher do Sul dos Estados Unidos: "I Called Him Morgan" traz muito sobre Helen Morgan assim como Lee. O que poderia ser um filme julgando uma mulher desprezada que mata seu amante em uma fúria de ciúmes é na verdade um triste e redentor estudo sobre sentimento de culpa e perdão. Ouvimos a voz de Helen através do filme em uma fita com um pouco de chiado feita por Larry Reni Thomas, professor em Wilmington, Carolina do Norte, que a ensinou após sair da prisão. Thomas gravou a entrevista em fevereiro de 1996; Helen morreu um mês depois. Rouca, sussurrada, melosa porém forte, um tipo de remanescente de Billie Holiday, sua voz nos conduz ao filme, junto com música de Morgan “Search for the New Land.” Ela também procurava por outro país quando saiu de Jim Crow South para New York no final de sua adolescência, assim como Charlie Parker e Dizzy Gillespie lançaram a revolução do bebop nos clubes chiques da cidade como o Minton e o “The Street”—West Fifty-Second Street.

Ela nascera em uma pequena cidade na Carolina do Norte e sua ambição era sair de lá. Teve seu primeiro filho aos treze anos, o segundo aos quatorze: “isso me desiludiu de um monte de coisas.” Ela deixou as crianças aos cuidados dos avós e se mudou para Wilmington aos dezessete anos. Lá conheceu o contrabandista de trinta e dois anos com quem se casou em uma semana. Após ele “se afogar”—um dos filhos dela veia a declarar que ela o havia esfaqueado—ela foi para New York, onde viveu na West Fifty-Third, um quarteirão do “The Street”; no entanto Collin não menciona isso, ela supostamente ganhou a vida entregando pacotes para um traficante do Harlem que confiava nela porque não era usuária. Ron Saint Clair, um dos vizinhos, dizia que ele era “a vencedora do bairro porque veio do Sul e tinha uma luta pela liberdade.” Era uma sobrevivente que sabia se defender. “Eu não vou fingir que era boa,” ela contou a Thomas. “Eu não era. Eu era esperta. Tinha que ser. Me cuidava.”

Ela se preocupava com os outros também, especialmente viciados e pessoas instáveis, uma delas era Lee Morgan. “Garoto, você precisa de um casaco,” suas primeiras palavras para ele, imediatamente o deixando entrar. Collin não especula seus motivos—como seu filme sobre Ayler, "I Called Him Morgan" é contado exclusivamente através de entrevistas. filmagens e notícias, sem narração—mas muitos imaginam que ela estava querendo substituir os filhos que havia abandonado no Sul. (Al Harrison, um de seus filhos, que não a conhecia até completar vinte e um anos quando foi visitá-la em New York.) Ela era, nas palavras de Maupin, “sua confidente, sua amiga, sua amante … tinha uma força e tanto, ela confiava nela.”




Ele tinha razões para isso. Como conta Paul West, baixista que tocou com Morgan na orquestra de Gillespie, “Esta é a mulher que o irou literalmente da sarjeta e o ajudou a ser o artista que foi.” West ajudou Morgan a ficar fora das ruas chamando ele para ensinar música no programa de aulas que tinha, o Jazz Mobile Workshop, onde jovens da comunidade negra aprendiam música com seus principais artistas. No filme de Collin vemos Morgan com um grupo de quatro jovens trompetistas tocando na frente de um poster que dizia, DRUGS THE HORROR TRAP = DROGAS, A CILADA DO HORROR, com a imagem de um braço sendo picado por uma agulha com heroína. Morgan ainda era jovem, com menos de trinta, mas para seus alunos, que nunca haviam ouvido Clifford Brown, ele era “experiente,” e, como um artista negro, se sentia responsável pela comunidade. Ele não usava mais a palavra jazz para descrever suas músicas —“É uma palavra que denominaram a nossa música, assim com nos denominaram Criolos,” ele disse. Ele era ativista no Jazz e no movimento do povo, uma aliança músicos que lutavam contra abusos da indústria fonográfica; de acordo com o saxofonista Billy Harper, um membro da banda que tocava do Slug na noite do assassinato de Morgan, ele havia se convertido pela filosofia de Malcolm X da auto-determinação negra econômica e política.

Sua musica também mudou, absorvendo as estruturas modais que Coltrane popularizou com seu clássico quarteto, os ritmos do funky e do novo R&B. A sensibilidade astuta e sarcástica de “The Sidewinder” se entregou ao anseio espiritual do Afro-soul jazz, um movimento pioneiro que voltou a moda graças a músicos de Los Angeles como o saxofonista Kamasi Washington. Em um dos mais impressionantes trechos do filme de Collin—um importante corretor do mito de que o jazz perdeu seu público negro ao final dos anos 60—Morgan pode ser visto em 1971 tocando  num episódio do programa Soul, com uma sala com jovens negros da época. Eles tocavam uma música escrita para Morgan pelo seu baixista Jymie Merritt, “Angela,” dedicada a “Irmã Angela Davis,” depois em uma prisão no Estado da California. Morgan, o descolado e "bon viveur" havia deixado seus hábitos de lado e virou religioso.

Ele também arranjou uma amante, Judith Johnson, que ele conhecia socialmente fazia alguns anos. Eles não tinham mito uma vida sexual—a sexualidade dele, ela contou, era “quase inexistente devido ao quell havia passado”—mas ela amava música tanto quanto ele e a conexão foi tão profunda que ele começou a passar muito tempo na casa dela em New Jersey. Na noite do assassinato, Johnson levou ele ao Bronx para ele pegar seu trompete. Ele tinha uma semana de shows no Slug club na East Third between B e C, um salão grande e estreito, com serragem no piso que como dizia Billy Harper, “tinha a reputação de ser um lugar onde se podia ouvir os gatos da noite". A neve já atingia uns quinze centímetro e ela parou o carro perto dos complexos do Grand Concourse. Morgan estava abalado desde que ele sabia que poderia ser muito piro: ele mencionou a morte de Clifford Brownem um acidente de carro assim que tinham chegado no Slug naquela noite. Então “as portas se abriram e lá estava Helen,” relembra Billy Harper. “Ela disse, ‘Estou aqui para o tirar satisfações.’” Morgan tirou ela de lá a força, sem seu casaco e a arma caiu da bolsa. Ela pegou e entrou novamente. Após atirar nele, ela pensou que tinha sido um sonho. Ele morreu antes da ambulância chegar.

Os amigos de Lee ficaram chocados; muitos nunca mais viram Helen novamente. “Foi uma época triste, o fim de um começo,” disse Jymie Merritt. Ela foi condenada por assassinato em segundo grau e cumpriu dois anos. Pouco depois que saiu da prisão, o baixista Larry Ridley, que tocou com Morgan no álbum Cornbread de 1967, viu ela em um bar chamado Needle’s Eye. Ele jurou que se a visse novamente iria “brigar feio com ela.” Ao invés disso, ele se viu a abraçando. “A raiva tinha ido embora.” Ela era Helen Morgan, apesar de tudo e sem ela ele sabia que Lee não teria tido outra chance. Em 1975 seu filho a levou de volta para a Carolina do Norte onde ela morou em Wilmington e ficou profundamente envolvida com a igreja. Ela não era uma crente, mas, assim explicou seu filho, “ela queria se redimir e retribuir.” De volta a sua terra natal ela finalmente havia “achado a salvação,” da paz e serenidade que a iludia e do homem que havia amado na procura pelo novo horizonte.

Adam Shatz é um editor colaborador do London Review of Books e residente afiliado no Instituto New York Institute for the Humanities.

Por Adam Shatz  03/04/2017
ON FILM 

tradução e adaptação: Daniel Latorre

assista no NETFLIX

14 de fev de 2017

Sociedade refletida na música


"O jazz sempre foi um interesse de minoria, como a música clássica. Ao contrário da música clássica, porém, o interesse que despertava não era estável. O interesse por jazz cresceu intensamente de uma hora para outra; por outro lado, houve épocas em que esse interesse caiu a níveis baixíssimos.
No final dos anos 30 e nos anos 50, houve um período de expansão marcante, os anos da Depressão de 1929 (nos EUA, ao menos), quando mesmo o Harlem preferia música leve e adocicada a Ellington e Armstrong. Os períodos em que o interesse pelo jazz cresceu ou foi reavívado, também foram, por razões óbvias para os produtores, épocas em que novas gerações de fãs quiseram conhecê-lo melhor".

Trecho do prefácio do livro "História Social do Jazz" do historiador Eric Hobsbawm, foi escrito há mais de 50 anos e ainda apresenta alguma atualidade, uma vez que os ciclos de altos e baixos ainda estão formando o padrão que definirá nossa época atual. 


O fenômeno do Jazz aconteceu no século XX sem precedentes na história da música. O  autor cruza informações econômicas e históricas analisando pontos de vista sociais que influenciaram o estilo desde sua origem e a relação com outros estilos como o rock que assumiram alguns de seus papéis sociais
Claro que ele expõe conceitos e pré-conceitos polêmicos que cabem a você analisar, principalmente se você gosta de história moderna e de vários estilos musicais.

"Não é preciso dizer muito a respeito do lugar que o jazz ocupa na cultura da minoria, nas "artes oficiais". Como veremos, até há pouco tempo o jazz tinha um lugar meramente marginal entre elas, em parte porque as artes oficiais o ignoravam, em parte porque se ressentiam dele como se fosse uma espécie de revolta popular contra seu status e pretensões à superioridade, e como uma agressão do filistinismo contra a cultura. Ele é ambas as coisas, e muito mais. No que toca à absorção do jazz pela cultura oficial, é uma forma de exotismo, como a escultura africana ou a dança espanhola, um dos tipos de exotismo "nobres selvagens" pelos quais os intelectuais de classe média e das classes altas ten- tam compensar as deficiências morais de sua vida, especialmente hoje, século XX, depois de terem perdido a certeza da superioridade de seu estilo de vida. Não vai aqui qualquer crítica ao jazz. A cantora de blues da Carolina do Norte, o trompetista de Nova Orleans, o músico-showman profissional, o veterano que há décadas realiza excursões tocando o "arroz com feijão" e música para dançar não têm culpa de os intelectuais ingleses e norte-americanos (incluindo, suponho, o escritor dessas observações) lerem a resposta às suas frustrações na música que executam."

Entretanto, o livro convida o leitor a entender melhor, apreciar o Jazz tradicional e algumas de suas clássicas transformações.


3 de fev de 2017

As Grooves do Vinil


Seja você a favor ou contra à tecnologia analógica e o ressurgimento do vinil - que pra muitos nunca sumiu - é fascinante ver através de um super microscópio como o som fica aprisionado dentro dele!


O visual lembra locais como Grand Canyon (EUA), o Cânion de Itaimbezinho (BR) e outras topografias onde a rocha foi esculpida pelo tempo.

 Ranhuras microscópicas do vinil e o Cânion de Itaimbezinho, considerado o maior de todos
 Assim como as informações sobre o universo e a terra foram aprisionadas nas ranhuras da pedra, o homem esculpiu suas histórias de forma similar no vinil.  

O antecessor do disco foi o cilíndrico fonógrafo de Thomas Edison, inspirado pelo fonoautógrafo de Léon Scott de 1957. Já Emile Berliner nos deu o formato "bolacha" que conhecemos em 1888. 
A agulha correndo sob a superficie do vinil
Mesmo com variações no formato e tecnologias aprimorando o produto ao longo dos séculos, o princípio é o mesmo: a agulha vibra através das ranhuras (grooves) no disco que move os magentos próximos a uma bobina (capsula). Este gera eletricidade que é amplificada emitindo o sinal de áudio. 

O entusiasta Ben Krasnow deu um passo à diante na explicação de como isso acontece através de um microscópio especial e criou um GIF da agulha "dançando" nas "ondas" do disco.

Microscópio mostra a agulha lendo as ranhuras do vinil.


bibliografia: kottle.org, flscience.com, thevinylfactory.com,  University of Rochester: URnano
texto: Daniel Latorre

20 de jan de 2017

Laurens! Música e aviação

Em 11 de janeiro de 1895 nascia Laurens Hammond, inventor do instrumento musical que mudou tudo, o órgão Hammond. Um inventor e engenheiro que foi além dos seus relógios elétricos e deixou para o mundo inúmeras patentes que vão além dos instrumentos, amplificadores e reverb de mola. Inovações da aviação ao cinema. Conheça mais sobre ele e se inspire!

5 de dez de 2016

Aos 85 anos, o guitarrista de jazz e educador Kenny Burrell continua firme e forte!

Aos 85 anos, o guitarista Kenny Burrell, vibrante e cheio de vida é uma exceção na história do jazz repleta de contos trágicos e mais finais prematuros do que o destino deveria permitir. 



“Acho que dei sorte com minha genética — minha mãe viveu até os 99 anos, talvez tenha a ver com isso”, Burrell comenta ao telefone do seu escritório em Schoenberg Hall na Universidade da Califórnia em Los Angeles, UCLA. Sua voz estava serena e firme, mesmo recém chegado de uma boa caminhada do estacionamento até o campus.

Burrell faz a mesma caminhada por duas décadas desde que foi convidado pela UCLA para ser idealizador e diretor do curso de jazz. Comemorando 20 anos do curso e os 85 anos de Burrell, a UCLA, escola de música Alpert School of Music (HASOM) e os Amigos do Jazz na Universidade se apresentaram no sábado, 03 de dezembro de 2016, no Royce Hall. O legendário guitarrista tocou com diversos artistas convidados, incluindo os cantores Barbara Morrison, Tierney Sutton e Robin Simone, o compositor Lalo Schifrin, a orquestra Los Angeles Jazz Unlimited Orchestra e a UCLA Philharmonia, regidos por Neal Stulberg.
Na sequência do concerto foi anunciado a criação do cargo em homenagem a Burrell, com seu nome para cadeira professoral do curso. “Kenny dedicou sua vida ao estudo avançado do jazz e a música como uma importante forma de arte Americana” disse Judith Smith, reitora efetiva da escola UCLA Herb Alpert School of Music, durante o discurso. “ O curso Kenny Burrell de estudos do Jazz ajudará a a recrutar um ótimo corpo docente que pode avançar cada vez mais os limites do ensino, levando adiante os artistas do Jazz.”

A relação de Burrell com a UCLA vem desde 1978 quando a escola o convidou para criar o programa do curso de Estudos Afro-Americanos. “Era apenas uma curso de meio período" ele disse. “Eu ainda estava viajando pelo mundo e não tinha muito tempo para ser professor”.  Burrell decidiu lecionar sobre um dos seus ídolos, o famoso pianista e compositor de jazz, Duke Ellington. A oportunidade de ensinar este curso, que Burrell nomeou de “Ellingtonia,” em parceria com a gravadora e selo californiano Fantasy Records, incentivou Burrell a se mudar de New York para Los Angeles atravessando o país junto de sua mulher e crianças. “Imaginei que seria um ótimo lugar para criar meus filhos e aproveitar as futuras oportunidades que estariam disponíveis para mim.”

Jimmy Smith e Kenny Burrell
Foi uma mudança significativa para Burrell, ele era um dos guitarristas mais produtivos e requisitados da era pós-bebop, elogiado pelo próprio Duke Ellington. Se apresentou e gravou com os melhores do jazz, incluindo Benny Goodman, Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e John Coltrane. Burrell ficou conhecido pelo seu trabalho com o incrível Jimmy Smith e seu formidável organ trio, gravando mais de 20 álbums com este virtuoso organista, incluindo o aclamado Organ Grinder’s Swing.


A mudança de Burrell para a Cosa Oeste foi o começo de sua gradual transição de músico prático para professor. Após lecionar por meio período na UCLA por 20 anos, Burrell finalmente abraçou seu destino como educador em 1996 quando foi nomeado professor efetivo e coordenador do programa de jazz.


Kamasi Washington
Gretchen Parlato
“Este era o sinal de que eles acreditaram de que eu era capaz, pela minha carreira e integridade que conquistei através dos anos atuando como músico, escritor e intérprete”, ele conta. "Senti que era uma grande oportunidade para realizar algo que valesse a pena, algo que eu sempre sonhei, algo que me permitisse conseguir o que diversos jazzistas conhecidos e talentosos não tiveram a oportunidade de conquistar". Na conversa com Burrell dava para sentir seu entusiasmo e devoção aos alunos que confiam nos seus ensinamentos. Ele falou com muito carinho de dois de seus antigos pupilos, o saxofonista Kamasi Washington e a cantora Gretchen Parlato, ambos alunos da UCLA e jazz superstars. Washington, ele diz "veio [para audição] e tocou a música 'Giant Steps' do Coltrane. Foi inacreditável para um novato tocar naquele nível. Sem dúvidas ele ia ser bem sucedido. [Gretchen] tinha uma voz suave e sutil, mas as notas que cantava e as harmonias que fazia eram tão grandiosas que sabíamos que ela seria bem sucedida.” Burrell acrescenta com orgulho, “Ela veio para vencer o concurso Thelonious Monk Competition!”

 É crédito total de Burrell que organizou o programa para continuar e se adaptar ao clima do jazz em Los Angeles. Ele faz este trabalho por amor. “É uma alegria minha e dos nossos professores ajudar os músicos” ele conclui,  “porque o que esta sendo feito é dar vida para que esta grande forma de arte continue”.

por Gary Fukoshima
traduzido e adaptado por Daniel Latorre

28 de nov de 2016

Cientistas estão trazendo de volta as Válvulas para os Computadores do Futuro

Um grupo de cientistas desenvolvem uma válvula microscópica de alta-eficiência que pode superar os semicondutores.

 


 Pesquisadores da Universidade de San Diego estão usando válvulas para desenvolver um processador de computador mais eficiente. A busca pode resultar uma rapidez significativa nos aparelhos micro eletrônicos e melhores painéis solares. Os resultados estão sendo publicados no journal Nature Communications.
Mais conhecida como um precursor primitivo do atual transistor, as válvulas eletrônicas já construiram os primeiros computadores no início do século 20 que ocupavam salas e prédios inteiros.
A invenção do transistor em meados do século 20 permitiram construir equipamentos menores que trilharam o caminho da revolução tecnológica nas últimas três décadas.

Para a tecnologia de áudio e da música, principalmente instrumentos musicais, o efeito é similar. Até o momento não conseguiram com transistores recriar a riqueza harmônica e potência que algumas válvulas fazem quando trabalham com o áudio dentro dela. Por isso ainda existem amplificadores e equipamentos de som valvulados sendo usados e fabricados hoje. 


Discutivelmente o transistor foi considerado a invenção do século. 
No entanto, os transistores estão longe de serem perfeitos. O material do que são feitos, os semicondutores, tem uma série de desvantagens. O menor tamanho que podem atingir não deverão ultrapassar as leis da física e há um limite máximo de sua eficiência. Estes limites já estão sendo alcançados e muitos pesquisadores têm procurado por alternativas. Um grupo em específico tem procurado no passado, inspirados nas válvulas eletrônicas.

Quando uma corrente elétrica entra em um semicondutor, tem que passar pelo material sólido que atrasa o caminho e limita sua eficiência. As válvulas não têm este problema porque a corrente viaja através do "nada". Produzindo válvulas miniaturas será possível aumentar a eficiência dos produtos eletrônicos.

Porém, um componente essencial da válvula, os elétrons passando livres no vácuo, será difícil de recriar em uma nano-escala.
Os pesquisadores da UC San Diego desenvolveram uma válvula de alta eficiência  usando uma nanoestrutura de ouro.
Os pesquisadores da UC San Diego desenvolveram uma válvula de alta eficiência usando uma nanoestrutura de ouro combinada com laser de baixa voltagem e baixo consumo.
O resultado é um aumento da eficiência elevado à décima potência e pode operar com mais força e menor resistência usadas nos semicondutores.
O próximo passo para o grupo de pesquisadores é reduzir o tamanho da válvula e explorar suas diversas aplicações. Se as pesquisas obtiverem êxito, os equipamentos do futuro poderão usar esta fantástica tecnologia criada no século passado - só que muito menor!

Por Avery Thompson
traduzido e adaptado por Daniel Latorre.

31 de out de 2016

Possibilidades de Herbie Hancock

Cult.Jazz Recomenda "Possibilidades"
 Herbie Hancock  é uma lenda do jazz! Uma carreira de sucesso que se estende por várias décadas. Sua música foi influenciada pelo jazz, R&B, hip-hop e sempre explora gêneros diferentes.
Desde seu trabalho com Miles Davis, em seguida com seu próprio grupo, tocou com todo mundo de Wayne Shorter a Joni Mitchell e Stevie Wonder. Nesta autobiografia ele conta um pouco sobre como fez tudo isso.

Hancock compartilha suas influêcias, estórias de bastidores, histórias pessoais e conta como o Budismo o inspirou criativamente e pessoalmente. O começo de sua carreira é o mais interessante.

Hancock nasceu em Chicago e desde jovem descobriu as duas coisas que iriam moldar sua vida: o piano e a mecânica. Estudou primeiro música erudita, estreou interpretando um concerto de Mozart com a Sinfônica de Chicago aos 11 anos de idade. Frequentou o curso de engenharia na Grinnell College em Iowa, mas seu interesse pelo jazz foi mais forte. Montou sua banda, começou a arranjar músicas e fazer shows no campus. Voltou para Chicago para continuar com a música e aos 20 de idade foi tocar na banda do trompetista Donald Byrd em Nova York.

Miles Davis, Herbie Hancock and Wayne Shorter
Herbie lançou seu primeiro álbum com a música “Watermelon Man,” em 1962. Logo em seguida, entrou para a banda do Miles e passou 5 anos com o grupo de jazz mais importante da época. “Miles era tudo que eu queria ser no jazz,” ele escreveu.  Davis orientava seus músicos para tocar solto, raramente dizia como deveriam tocar mantendo sempre a música interessante e fresca. Mas uma vez chegou perto do Herbie tocando o piano e sussurrou em seu ouvido 5 palavras: “Não- -toque-notas-muito-suaves.” Hancock tentou decifrar o que ele quis dizer, depois de muito pensar chegou à conclusão de que Davis talvez tinha dito na verdade “notas muito graves”. Mas ele havia entendido que deveria tocar acordes mais espaçados na mão esquerda, dando maior liberdade harmônica para os solistas. Muitos entendidos dizem que o grande "Segundo Quinteto" de Miles - aquele com Hancock, o saxofonista Wayne Shorter, o baixista Ron Carter e o baterista Tony Williams - atingiu o ideal platônico do jazz moderno, expandindo a arte sem sacrificar a forma.

Foi na inquietação de 1968 que Hancock saiu da banda de Davis para fazer sua própria música e satisfazer suas necessidades de explorar os instrumentos eletrônicos, fascinados pela efervescência dos tecladistas e seus sintetizadores. Em 1970, sua banda “não tocava músicas, criava ambientes sônicos” ele escreve. “Estávamos abertos para todo tipo de sonoridades vindas de qualquer lugar” —como se fosse uma coisa boa. Sua música “exigia dos ouvintes uma enorme atenção e paciência” ele admite. “Não era à toa que nosso público era limitado.”
Herbie Hancock - Cult.Jazz 2016
 Assim como muitos que passaram para a música eletrônica — incluindo seus mentores Miles Davis e Byrd — Hancock quis ganhar os créditos de ser o primeiro a tocar jazz com algo a mais.  Pode ter sido treinado para ser um jazzista, mas foi sucesso mesmo no fusion, funk e R&B dos seus grupos Mwandishi e Headhunters da década de 1970s, incluindo seu hit eletrônico “Rockit” dos anos 1980, tinham pouco em comum com o vocabulário musical de Duke Ellington e Dizzy Gillespie. “Eu tinha que ser honesto comigo mesmo” Hancock escreve, ignorando as críticas, “e era esse o tipo de música que queria seguir.”
 Herbie recebeu o Oscar pelo seu trabalho na música para o filme “Round Midnight” em 1986. O restante do livro segue contando suas experiências em estúdios de gravação até ganhar o Grammy de álbum do ano em 2008.
Quem gosta de música e de jazz tem que ler!